Ameaça de pedofilia na web deixa escolas em alerta.
Isabelle Câmara
Escolas mudam a rotina de acesso aos laboratórios virtuais e à Internet por medo do assédio de pedófilos. O acompanhamento e o diálogo com as crianças são as melhores formas de proteção.
A CPI da Pedofilia, que nas últimas semanas promoveu a quebra de sigilo de mais de três mil perfis no www.censura.com.br - Campanha Nacional de Combate à Pedofilia -, a Internet é hoje o principal meio de divulgação da pedofilia, que movimenta milhões de dólares por ano e forma verdadeiras redes com o objetivo de articular e unir os pedófilos, adquirir fotos, vídeos, fazer turismo sexual e tráfico de menores. Orkut e revelou a ação de mais de 500 pedófilos no site de relacionamentos, trouxe à tona um questionamento: como os pais e as escolas podem proteger filhos e alunos da exposição a esse tipo de assédio? Segundo informações do site

No Colégio Agnus, uma educadora acompanha o acesso dos estudantes a Internet. A escola também está formando um grupo de pais e mães para lidar com essa questão (Foto: Alex Costa)
No Colégio Agnus, por exemplo, o acesso dos estudantes a Internet passou a ser acompanhado por uma educadora, seja na sala de informática, no laboratório de multimeios ou na biblioteca. “Também estamos formando um grupo de pais e mães para lidar com as questões da violência doméstica; essa formação inclui o aprendizado sobre como proteger os filhos da pedofilia”, revela Fernando Antônio Pinto, diretor da escola, assistente-social e mestrando em Educação pela Universidade São Marcos (SP).
A escola admite que adotou essa iniciativa por precaução, visto que desconhece qualquer tentativa de aliciamento dos estudantes do local. Entre outras medidas preventivas, o bloqueio de acesso ao site de relacionamentos Orkut, ao MSN e às salas de bate-papo. “Queremos ainda este ano transformar o laboratório de informática da escola numa lan house, porque muitos alunos não acessam Internet em casa e assim garantiremos que o tempo livre na web seja usado para pesquisas ou para atividades produtivas”, planeja o diretor. A preocupação redobrou com a CPI da Pedofilia tanto que o tema entrou para a pauta do I Encontro de Temas Polêmicos, que a escola realizou nos últimos dias 30 e 31 de maio, em parceria com o Colégio Rosa Gattorno.
Na Escola Vila, além do acesso ser monitorado num laboratório que só comporta 10 alunos por aula, a coordenação pedagógica elaborou uma disciplina chamada Desenvolvimento Humano. Segundo Áurea de Abreu, psicóloga, nessa disciplina são trabalhadas as questões cotidianas e os conflitos inerentes a cada idade, como sexualidade, drogas, violência e abuso sexual. “A escola precisa ser um espaço de confiança. Desde que a gente percebeu que esse era um perigo que não está longe da gente, porque ele vem pela Internet e entra na vida de qualquer um, que muitas crianças estão sendo vítimas, que adotamos medidas preventivas”, revela a psicóloga. A Escola também procura orientar os pais. “Conversas e bloqueio de sites prejudiciais, bem como acompanhamento dos ambientes que a criança freqüenta na Internet, são as dicas básicas”.
Para Ana Carmen Santana, pesquisadora no Laboratório de Multimeios da Universidade Federal do Ceará (UFC), aluna da pós-graduação em Educação da UFC e monitora na Bibliotequinha Virtual do Centro Cultural Banco do Nordeste, a escola deve ficar atenta e ao lado dessas crianças, para que as descobertas sejam utilizadas pedagogicamente na melhoria da qualidade de ensino e na formação de cidadãos críticos em nossa sociedade. “Numa situação onde for pesquisar sobre sexo ou sexualidade, o indicativo para sítios pornográficos estará lá nos resultados, mas a mediação pode tornar aquilo motivo de piada, tabu, ou até mesmo facilitação de acesso a materiais pornográficos. Trabalhar com o lema ‘nada é proibido, mas nem tudo é permitido’ é o que aprendemos e trabalhamos nos projetos do Laboratório Multimeios da UFC, e essa é nossa sugestão para que o chamado das turmas para a construção de regras de convivência coletiva seja algo concreto”.
Como identificar um pedófilo
De acordo com a Polícia Federal, existe, sim, um perfil de pedófilo que age através da Internet, apesar dela acreditar que, em casos de pedofilia, nem sempre há regra ou padrão estabelecido. Na maioria dos casos apurados pela polícia, o perfil é de um homem entre 30 e 45 anos, solteiro, que mora sozinho, reservado, inseguro, tem dificuldade de manter relações afetivas por muito tempo e, em alguns casos, cansou de consumir pornografia adulta, migrando para a pedofilia.
Entenda a CPI da Pedofilia
A CPI da Pedofilia, presidida pelo senador Magno Malta (PR-ES), foi instaurada no dia 25 de março de 2008 devido a várias denúncias que a organização não-governamental (ONG) SaferNet vinha fazendo ao Ministério Público, há mais de quatro anos, de crimes praticados na internet. Ela surge na esteira da CPI da Exploração Sexual para investigar as redes de pornografia infantil e outros delitos cibernéticos.
Um balanço parcial da ONG mostrou que, no primeiro trimestre de 2008, houve um aumento de 107% na publicação de páginas de interesse de pedófilos no site de relacionamento Orkut. O número de denúncias sobre o assunto chegou a 35.049, ou 500 registros diários. Em 2007, foram 267.089 denúncias.
A reportagem tentou entrar em contato com o diretor executivo da ONG SaferNet, Thiago Tavares, via telefone e e-mail, mas foi informada por Krishnamurti Nunes, assessora da organização, que ele está colaborando com a CPI, por isso não atende.
“Liberdade assistida” para navegar
Desde o dia que Maria Cleide Ribeiro, diretora da Escola Estadual Miguel Gurgel, percebeu que um grupo de alunos estava acessando sítios de pornografia, que passou a adotar medidas restritivas de uso da Internet. À época (2007), segundo a diretora, a instituição contava com poucos computadores que ficavam em áreas isoladas, mas que foram posicionados próximos aos professores das disciplinas regulares.
Hoje, a escola conta com um laboratório de informática com acesso ao mundo virtual e uma educadora da área. “Digo que os alunos têm liberdade assistida para navegar na Internet: bloqueamos todos os sites prejudiciais ao desenvolvimento dos estudantes e o laboratório só é utilizado dentro da carga horária, sempre com objetivos e tarefas a serem cumpridas; determinadas pelos professores das disciplinas escolares e acompanhadas pela professora de informática”.
De acordo com Maria Cleide, o laboratório também serve como estúdio para a rádio escolar, o que ajuda na divulgação dos riscos da Internet, como a exploração sexual e a pedofilia. “Procuramos orientar para que o uso da web fora do ambiente escolar seja feito de maneira saudável”. A diretora adianta que está desenvolvendo um projeto de capacitação para todos os professores da escola sobre o uso múltiplo e saudável da Internet. “Essa preocupação mais ampla é recente; fruto das notícias que temos das investidas de pedófilos. O problema não é novo, mas a consciência agora é maior”.
Como preservar provas do assédio de pedófilos
Caso desconfie que seu filho é alvo de um pedófilo, procure reunir o maior número possível de informações para fazer uma denúncia formal. A delegada Ivana Timbó sugere que os pais guardem alguma prova do material que foi produzido ou das conversas em que se suspeita de assédio e compareça à Delegacia de Combate à Exploração da Criança e do Adolescente (Dceca) ou à Polícia Federal.

Ana Carmen, monitora na Bibliotequinha Virtual, orienta aos pais a acessar registrar os textos suspeitos (Foto: Marcos Studart/especial para O POVO)
Ana Carmen Santana, pesquisadora no Laboratório de Multimeios da Universidade Federal do Ceará (UFC), aluna da pós-graduação em Educação da UFC e monitora na Bibliotequinha Virtual do Centro Cultural Banco do Nordeste, acrescenta: “É importante que fique claro que os crimes virtuais são reais, eles só se dão de maneira diferente na relação tempo e espaço. O Brasil ainda está com suas leis para crimes cibernéticos em discussão, e utilizar os códigos do presencial, muitas vezes, não contempla essas questões. Acessar os links no histórico ou registrar os textos dos diálogos podem ser alternativas, tendo como referência a parte tecnológica de software”.
Ela ainda pondera que “rastrear” os percursos da criança ou adolescente na Internet pode ser uma ilusão. “Mediar é a nossa proposta. Aí é que, fazendo uma análise preliminar da situação, será possível refazer o percurso, sondar quem são as pessoas envolvidas e os possíveis códigos internos de seus grupos. Seria uma espécie de investigação inicial, mas se houver indícios relevantes, a denúncia do crime é a medida inicial”.
Diálogo e orientação para crianças
Mais da metade (59%) dos brasileiros de 10 a 15 anos já acessaram a Internet, segundo dados do Comitê Gestor da Internet. Eles estão entre os alvos de crimes que crescem no Brasil e no mundo: pedofilia e pornografia infantil on line.
Segundo estudos do Laboratório de Multimeios da UFC, as meninas acessam a sítios de bonecas que ensinam a cuidar de bebês virtuais, mudar o visual e cuidar da casa, enquanto os meninos vão para os jogos envolvendo esportes radicais, lutas marciais. “Mas, as crianças buscam todo tipo de conteúdo que os adultos também se interessam, desde jogos, mundo dos famosos, vídeos, pesquisas escolares, até os sítios rotulados como ‘proibidos para menores de 18″, alerta Ana Carmen.
Para Ana Carmen, também é fundamental acompanhar as reações e comportamentos dessas crianças ao se relacionarem com as pessoas, visto que na Internet podem estar colegas, educadores, parentes, mas também pessoas estranhas e criminosos virtuais. “Existem pessoas que criam perfis como se fossem crianças, tentam fazer ‘amizade’ para levantar dados pessoais das crianças (sua rotina, familiares, fotos, vídeos etc). Não se trata de invadir a privacidade, mas as conversas sempre vêm a calhar. Engana-se quem pensa que diante da Internet seu filho ou filha está seguro, por isso, o diálogo é mais do que nunca o diferencial para a mediação de se evitar problemas com pedófilos”.
Ana Carmen também avalia que é importante estar junto da criança mediando descobertas. “O computador de uso da família bem que poderia estar num local comum a todos, assim como estão os outros meios de comunicação da casa, como o telefone fixo, a TV ou o rádio. Vigiar e proibir não é o melhor caminho, só adia para amanhã (ou nunca) o diálogo sempre necessário”.
Fonte: Jornal O Povo


























