Na Amazônia, a prostituição infantil cresce até nas cidades mais ricas
A prostituição infantil cresce na Amazônia proporcional ao abandono e à falta de prioridade que o governo federal dispensa à região da maior floresta tropical do planeta. Ocorrendo simultaneamente aos crimes de devastação florestal, de biopirataria e de tráfico de drogas e de armas, a prostituição infantil aumenta até em cidades ricas da grande floresta, que lideram a arrecadação de impostos e royalties de gás, petróleo, bauxita e minério, conforme atesta reportagem especial deste domingo, 07/07, do jornal O Estado de São Paulo.
Cidades amazônicas viram eldorados da prostituição infantil
Ao lado dos lucros com petróleo e mineração, 3 cidades amazônicas vêem crescer abusos e gravidez precoce
Os novos eldorados econômicos da Amazônia apresentam números de exploração sexual de crianças e índices de qualidade de vida na infância piores que os de outras cidades na floresta, informam os enviados especiais do Estado à região Leonêncio Nossa e Celso Júnior. A reportagem completa está na edição do Estado deste domingo do Estado de São Paulo.
Líderes na arrecadação de impostos e royalties de gás, petróleo, bauxita e minério, os municípios de Coari (AM), Juruti e Parauapebas (PA) vivem um boom econômico, mas registram, ao mesmo tempo, índices de violência contra meninas proporcionalmente semelhantes aos que surgiram nos anos 70, no rastro da traumática experiência de desenvolvimento impulsionada pela Rodovia Transamazônica, pela mina de Serra Pelada e pela hidrelétrica de Tucuruí.
Após 34 anos da abertura da Transamazônica e de 25 anos do auge do garimpo e da inauguração da usina, a Amazônia desses municípios repete padrões de crescimento igualmente destruidores, tem gestões públicas sem transparência, além de ignorar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
A estatística das meninas grávidas com idade até 15 anos é o retrato fiel da situação. Das mulheres que tiveram filhos no Brasil, nos primeiros seis meses deste ano, 1,3% estavam nessa faixa. Esse índice cresce nos Estados do Amazonas e do Pará para 1,9%, mas é dez vezes maior em Coari, 13,9% - em 1995, um ano antes da chegada da Petrobras à cidade, 1,7% das grávidas do local tinha idade abaixo de 15 anos.
Parauapebas registrou no primeiro semestre deste ano uma taxa de 2% de grávidas com idade abaixo de 15 anos. Em Juruti, do total de grávidas atendidas no hospital local, no ano passado, 2,5% tinham idade abaixo de 15 anos - esse porcentual foi de 0,9% em 1995.
Nos projetos de prefeituras e empresas que lideram a atividade econômica nesses locais - Alcoa, Vale e Petrobrás - sobram intenções e faltam objetivos práticos que mudem o panorama. E não é por falta de dinheiro.
Muitas prisões em Coari
O eldorado da prostituição infantil, relatado acima na reportagem do jornal o Estado de São Paulo, se alastra por toda a região amazônica. Em Coari, muita gente boa foi presa durante a deflagração da Operação Vorax, da Polícia Federal, em maio deste ano, para investigar uma quadrilha liderada pelo prefeito do município, Adail Pinheiro. A quadrilha foi acusada de sonegar impostos, fraudar licitações, desviar verbas públicas e também praticar prostituição infanto-juvenil.
Durante a Operação Vorax, na qual foram presas 23 pessoas entre assessores, parentes e empresários ligados ao prefeito de Coari, Adail Pinheiro, a PF apontou que além dos crimes contra a administração municipal, os envolvidos no esquema contratavam garotas, entre os quais havia menores de idade, para a prática de orgias sexuais.
Segundo a PF, o empresário Fábio Martins, da agência Mega Models, levava “modelos” para eventos em Coari, que faziam programas sexuais pagos com recursos públicos. As meninas chegavam a receber R$ 3 mil por programa. A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pedofilia do Senado Federal passou também a investigar os casos de exploração sexual infanto-juvenil em Coari.
Caso da garota que virou escândalo nacional
Os casos de exploração sexual infantil na Amazônia alcançaram tal intensidade que um deles, ocorrido em Roraima, acabou se transformando em pano de fundo para o mais recente escândalo político nacional, que foi o caso de grampos de autoridades federais.
O depoimento de uma garota de 14 anos à CPI da Pedofilia do Senado, que motivou o telefonema do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) para o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Gilmar Mendes, ocorreu sem a interferência do Supremo, segundo informou o jornal Folha de São Paulo.
Segundo o jornal, logo após a conversa entre os dois, que foi grampeada e se tornou um escândalo nacional, Demóstenes conseguiu convencer a Procuradoria-Geral de Justiça de Roraima de que a Justiça estadual não poderia interferir na CPI federal.
Em telefonema para o procurador-geral de Justiça, Alessandro Assad, o senador argumentou que iria acionar o STF, caso não houvesse um recuo. Os promotores que haviam acionado a Justiça para que a garota não depusesse na CPI voltaram atrás e ingressaram com nova petição. A Justiça recuou e liberou o depoimento, conforme o jornal paulista.
A garota de 14 anos, protegida pelo Programa de Proteção à Testemunha, depôs à CPI numa sala da Polícia Federal, em Brasília. A garota disse que fez programas com empresários e autoridades do Estado e citou nomes, inclusive o de um deputado federal.
A garota foi descoberta pela Operação Arcanjo, da Polícia Federal, que desvendou uma rede de pedofilia em Roraima. As vítimas, segundo o presidente da CPI, senador Magno Malta (PR-ES), eram crianças de famílias humildes, em sua maioria, com idades que variam de 05 a 14 anos.
Fonte: Kaxiana











