Como o Sol do meio-dia
Priscila Fantin (Creuza) e Murilo Rosa (Mozart) numa cena de “Osquestra de Meninos“,de Paulo Thiago: realidade e ficção num filme sobre a relação entre a arte e o poder
“Orquestra de Meninos”, de Paulo Thiago, narra uma história real e encanta pela simplicidade e pela beleza da música em pleno sertão nordestino
Nada de espetacular. Narrativa simples e despojada. Muito distante da atual estética da violência que vem tomando conta do cinema nacional nos últimos anos. “Orquestra de Meninos”, do mineiro Paulo Thiago, é um filme que encanta, envolve e embala. A violência, principalmente num segundo momento, também, invade a narrativa. Sai a música, o sonho e entra em cena a pior e mais nociva coação e constrangimento: a do poder. No contraponto da violência, “Orquestra de Meninos” sobressai-se muito mais pela poética do sublime.
O protagonista, maestro Mozart Vieira, teve um sonho. Levar música ao agreste do sertão de Pernambuco através de uma orquestra de meninos. Conseguiu, por meio de muitos obstáculos, realizá-lo. Começa a incomodar as elites de São Caetano, município pernambucano. Os pais dos meninos também se revoltam contra o maestro. Eles querem os filhos na roça e não tendo aulas de música.
Enquanto isso, o maestro e sua orquestra alcançam dimensão nacional. Incomoda aos políticos provincianos. Uma teia de inveja, perfídia e, principalmente, difamação envolve Mozart Vieira e a sua pequena, mas competente orquestra. É tempo de eleições. O maestro coloca-se contra os poderosos. Polícia, Procuradoria e políticos terminam por acusá-lo de pedofilia.
A história é real. Ganhou páginas de jornais, causou controvérsias no sertão pernambucano. O cineasta Paulo Thiago (“Histórias e Casos da Bossa Nova”, “Poeta de Sete Faces”, “Policarpo Quaresma: o Herói do Brasil” e “Jorge um Brasileiro”) tomou contato com a história do maestro e sua orquestra e, também, do seu drama através de “O Estado de S. Paulo”.
Paulo Thiago não pensou duas vezes. A história de um maestro em pleno sertão pernambucano e sua pequena orquestra daria samba, ou melhor, filme. E deu. Inicialmente reticente, Mozart Vieira acabou por aceitar que a sua história fosse adaptada para o cinema. Ele já conhecia a filmografia de Thiago. Mas temia que antigos pesadelos e o confronto com os poderosos de São Caetano retornassem com “Orquestra de Meninos”.
O filme foi lançado em pré-estréia em Aracaju. Além de Paulo Thiago, os atores principais estiveram presentes: Murilo Rosa, Priscila Fantin, Othon Bastos e Laís Correia. O restante do elenco é o formado por atores sergipanos.
Paulo Thiago é um cineasta veterano. Transpôs para um pequeno município do agreste nordestino um embate antigo, universal entre dois pólos: a arte e o poder. A narrativa bem poderia pender para o dramalhão. O roteiro - produzido por Malanie Dimantas, Graciela Maglie e Paulo Thiago - fugiu da armadilha. Afinal, a história do maestro com a sua orquestra bem que poderia ser explorada de forma sensacionalista. Os ingredientes são fortes: políticos corruptos, suborno e perversão. No meio do turbilhão, o maestro e a sua orquetra.
O cineasta preferiu focar seu filme no sonho, na música. Diálogos bem colocados, atores afinados. A narrativa começa com o maestro dando os primeiros passos para estruturar a sua orquestra. Buscou uma escola. A professora D. Josete (Laís Correia) cedeu-lhe um galinheiro. Aliás, a polifonia de folhas, pássaros, ventos, rios invadem o filme como a música dos garotos de “Orquestra de Meninos”. Mozart Vieira consegue, com muito trabalho, reformar o galinheiro. Depois, a batalha pelos instrumentos. O primeiro movimento do filme é dos mais belos. Os ensaios encantam. A primeira flauta, clarinete ou oboé. O primeiro sopro. O primeiro deslumbramento.
A trama se desenvolve harmonicamente. A orquestra cresce. A música toma a telona: Bach, Mozart, Guerra Peixe, Villa-Lobos, Chiquinha Gonzaga, entre muitos outros. Belos momentos. Música, boa música em pleno sertão nordestino. Os garotos da orquestra - chamados pejorativamente de “os doidinhos de Mozart” - preenchem qualquer lacuna do filme. Lacunas eclipsadas pela música. Conflitos neste primeiro momento também são colocados: a revolta dos pais, por exemplo, que pressionam os filhos a abandonarem a orquestra para trabalharem na roça. Mas também muita música. A paixão entre Mozart (Murilo Rosa) e uma de suas alunas Creuza (Priscila Fantin) também pontua esse primeiro movimento.
Ficção ou realidade? Talvez, um plano contamine o outro. Arte e realidade são religadas com competência por Paulo Thiago. O diretor foge também dos clichês tão comuns em filmes do gênero, principalmente quando realizados no Nordeste, uma região que ainda convive com bolsões de pobreza e miséria. Os protagonistas Creuza (Priscila Fantin), Mozart (Murilo Rosa) e Moisés Batista (Othon Bastos) não se deixam levar por interpretações fáceis com sotaque forte e movimentos bruscos como são, quase sempre, criados os personagens nordestinos. Principalmente, quando interpretados por atores do eixo Rio-São Paulo. Pelo contrário. Murilo, Priscila e mesmo Othon Bastos (intérprete de Moisés Batista, político truculento) equilibram seus personagens e fogem dos rótulos tão comuns a maioria dos filmes realizados na região com temáticas nordestinas.
No segundo movimento do filme, a tragédia. O maestro Mozart Vieira é acusado de pedofilia por seus detratores. Neste segundo movimento, o filme de Paulo Thiago parece perder a força. Os dois momentos - do sublime à tragédia - se deram de forma brusca. O corte foi por demais rápido, talvez, inconsistente, não dando tempo ao espectador atravessar de um movimento para o outro sem estranhamento. O objetivo de Paulo Thiago, talvez, tenha sido mesmo o de causar uma ruptura radical, buscar estranhamento na sua narrativa. A atmosfera agora é pesada. Um dos integrantes da orquestra é estuprado. A trama é armada contra Mozart. Entra em cena outros protagonistas a favor do maestro, entre eles, D. Helder Câmara e os músicos Ivan Lins e Geraldo Azevedo. Uma pitada de documentário - com depoimentos de Lins e Geraldo - dá verossimilhança ao enredo. Paulo Thiago realizou um filme sublime a partir de uma história verídica. Sabemos que o “real” é recriado através do discurso, da narrativa. Ninguém, jamais recupera o passado em toda a sua complexidade. Muitos filmes têm se baseado em histórias reais e transpostos para a telona na atual quadra do cinema brasileiro. Alguns deles, violentos. Como a própria realidade brasileira. O de Paulo Thiago também tem doses de violência. Jovem músico é seqüestrado e Mozart Vieira, criador da orquestra de meninos, é acusado de pedofilia. O fato se deu em 1995 e foi explorado por jornais do País.
No filme, no entanto, a tragédia sofrida pelo maestro não ocupa o plano principal. Mas sim a sua orquestra, meninos dos grotões nordestinos interpretando a mais bela música do mundo. Num lugar perdido, sem equipamentos culturais, distante de qualquer vestígio civilizatório, um sonho transforma-se em realidade. E a música, através de adolescentes cujo destino são o trabalho escravo e a crueldade de uma realidade ainda persistente em pleno século XXI, explode na tela como o Sol do meio-dia.
Mais informações:
O Diário do Nordeste promove hoje, às 21 horas, no Multiplex UCI Ribeiriro, do Iguatemi, a pré-estréia de Orquestra de Meninos, de Paulo Thiago, com a presença do ator Murilo Rosa. A exibição será somente para convidados.
Fonte: Diário do Nordeste

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