Aos 13 anos, Maria (nome fictício), é franzina, tem corpo de menina, ainda sem sinais da adolescência. A ausência de atributos físicos levou-a para a “fila das novinhas”. A expressão é comum em reuniões organizadas por integrantes da milícia que atua na Gardênia Azul, em Jacarepaguá.
Numa casa na Avenida Canal do Anil, os milicianos selecionam crianças e jovens, entre 9 e 14 anos, que vão ser negociadas em noitadas embaladas por bebidas e drogas. Depois de chegar às favelas com o marketing do choque de ordem, seduzindo moradores com a promessa de pôr fim ao tráfico de drogas, a milícia está sendo investigada pelo Ministério Público Estadual pela prática de um dos crimes mais cruéis: a exploração da prostituição infantil, como informa reportagem publicada nesta quinta-feira pelo jornal O Globo.
Desde domingo, a série Favela S/A tem mostrado quem lucra explorando negócios em comunidades pobres do Rio. A milícia descobriu agora que a exploração sexual de crianças e adolescentes pode ser mais um filão.
Antes, casos de prostituição infantil aconteciam em redutos do tráfico, sendo comuns em bailes funks.
A investigação da 19ª Promotoria de Investigação Penal (PIP), do Ministério Público do Rio, tem como base um documento do Centro de Apoio às Promotorias da Infância e Juventude. Nele, há relatos de parentes e das vítimas atraídas para orgias. As primeiras denúncias foram feitas em agosto do ano passado. Na última semana, começaram os trabalhos para identificar e punir criminalmente os milicianos. Os acusados poderão ser denunciados por exploração da prostituição infantil, com penas de quatro a dez anos de prisão, e estupro, que é crime hediondo, porque há presunção de violência, já que as vítimas, à época, tinham menos de 14 anos. Com isso, a pena máxima pode chegar a 15 anos de reclusão.
O aliciamento das meninas veio à tona com o depoimento, em agosto de 2007, da mãe de Ana (nome também fictício), de 12 anos. Segundo a mulher, a filha fugiu de casa à noite para participar da “fila das novinhas”. As meninas selecionadas pelos milicianos recebiam um real para participar das noitadas.
A mãe de Ana contou ter descoberto a existência das orgias na noite em que a filha e uma amiga dela, Maria, chegaram em casa sujas. Maria estava com hemorragia, devido a seguidas relações sexuais. A menina contou ter recebido um real depois de ter feito sexo com 23 homens, sem preservativo. Na ocasião, a mãe de Ana disse que iria à polícia, mas tanto a filha quanto a amiga disseram que negariam tudo. De acordo com os depoimentos prestados no Conselho Tutelar de Jacarepaguá e no Centro de Apoio às Promotorias da Infância e Juventude, as meninas demonstravam um certo orgulho por terem sido escolhidas por milicianos.
Não houve até agora qualquer operação para reprimir a exploração sexual infantil na Gardênia Azul. Os depoimentos prestados sequer foram encaminhados à delegacia regional ou à Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima, que investiga crimes praticados contra jovens.
Procuradas pelo O GLOBO, as promotoras Márcia Velasco e Christiane Monnerat, responsáveis pela 19ª Promotoria de Investigação Penal, confirmaram o início da investigação, mas, como a apuração envolve crianças, informaram que não poderiam comentar o caso.
Fonte: O Globo Online