
Criança pede esmola na Avenida Esperança, esquina com a Avenida Senador Rui Carneiro, em João Pessoa-PB
Janine Maia
Bastou a pronúncia da palavra “boneca” para que um brilho diferente no olhar e um sorriso nos lábios se apresentassem no rosto sujinho da pequena N.S.M, de seis anos. Também, pudera, com exceção dos domingos, ela e sua irmã I.S.M, oito anos, vão todos os dias ao Terminal do Siqueira pedir esmola. Assim, as brincadeiras, comuns na infância, ficam para depois. Afinal, durante a tarde, é preciso acumular muitos centavos, pedidos em meio à confusão de ônibus e pessoas.
Nem bem sabem contar quanto conseguiram com suas mãos de crianças, N.S.M e I.S.M. já carregam nas costas a obrigação de, ao final do dia, acumularem R$ 8,00, os quais são entregues à mãe, que estipulou a quantia. “É para comprar o leite do menino e colocar comida em casa. A mãe tá precisando, ela não trabalha”, explica a mais velha, que, pela idade, já sabia quanto faltava para cumprir a meta e voltar, no ônibus que decorou o número, para o Bom Jardim.
Ao andar pelas ruas da Capital, facilmente encontramos outras N.S.M. e I.S.M. Seja por ordens dos pais ou complicações nos relacionamentos familiares, centenas de jovens estão espalhados pelos sinais de trânsito, mendigando. Para se ter uma idéia, o estudo realizado em 2007 pela Equipe Interinstitucional de Abordagem de Rua de Fortaleza, em parceria com o Fundo das Nações Unidas para Infância e Adolescência (Unicef) e o Núcleo de Articulação, concluiu que, na época, 411 crianças e adolescentes encontravam-se em situação de rua na Capital.
Destes, 67,2% eram meninos e 32,8% meninas. Do total, 70,8% possuíam entre oito e 16 anos, enquanto que 12,4% eram crianças de um a sete anos. De acordo com a interpretação do sociólogo Domingos Abreu, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e integrante do Laboratório de Estudos da Violência (Lev), muitos são os motivos que levam as crianças a recorrerem às ruas. Porém, conforme detalha, isso somente acontece “em situações-limite”. Até porque, diz, “não é fácil viver na rua”.
Domingos Abreu, em relatório sobre a pesquisa da Equipe Interinstitucional, esclarece que, com o levantamento, entende-se “que o maior contribuinte para a ida dos meninos para a rua é a própria família, 33,8% alegam ser essa a maior motivação, seja por problemas infra-estruturais (miséria), por relações fragilizadas ou violências sofridas”. Desta forma, como lembra o educador Nei Robson, coordenador do Programa Ponte de Encontro da Fundação da Criança e da Família Cidadã (Funci), a mendicância “se tornou uma estratégia de sobrevivência, uma fonte de renda”, sobretudo para combater essa miséria, que assola diversas famílias.
No entanto, como alerta, a prática “pode servir de entrada para situações ainda piores para os jovens”. Segundo Nei Robson, muitos dos que hoje moram nas avenidas iniciaram com o pedir esmola. A partir daí, o contato com as drogas, o aliciamento sexual e até mesmo a integração com os demais crianças e adolescentes, que vivem nas ruas, contribuem para que outros permaneçam nas vias públicas.
CAROLINE TREIGHER - Um dever de todos
Psicóloga, com formação em Psicologia Fenomenológica-Existencial
A exploração da criança pelo adulto não é uma característica apenas da atualidade. Não é sequer um privilégio das classes mais pobres. Na verdade, é um método antigo que muitos pais usaram para driblar suas próprias obrigações e frustrações mais íntimas em nome da educação.
Claro que os pais que não tiveram o benefício de uma escola organizada e encontram-se achatados na base da pirâmide social, sofrendo com privações de toda sorte e possuem uma explicação - jamais uma justificativa - para obrigarem seus filhos a pedir esmola nos sinais. Eles ignoram a extensão do mal que praticam. Não sabem que crianças sem infância, expostas à humilhação pública, feridas em sua auto-estima, tendo seus pezinhos descalços rachados num asfalto quente, sua saúde ameaçada pela dureza do dia-a-dia nas ruas, crianças suscetíveis aos abusos de todos os tipos, à violência, aos entorpecentes, são fortes candidatas às psicopatias que escandalizam a sociedade. Bem verdade, eles próprios não tiveram infâncias melhores, porque o descaso com a infância vem de longe.
E tudo isto com a anuência silenciosa de pessoas que fecham os olhos ao quadro assustador da criança explorada, e se tornam cúmplices do erro que tantos pais cometem ao colocar seus filhos nas ruas, porque estão mais preocupadas com suas questões particulares.
Acaba que todo mundo sofre as conseqüências dos males causados às crianças mau-tratadas. Afinal, estes meninos e meninas crescem e, não raro, tornam-se os adultos que perturbam a ordem social. Choca-nos a frieza de muitos marginais, mas quem os colocou à margem? Quem os introduziu à insensibilidade? Não fomos nós também?
Muitos pais espancam os filhos alegando orientar, fazem-nos bodes expiatórios de suas revoltas, projetam-lhes suas frustrações, apoiados no simples fato de os haverem gerado, como se eles não fossem pessoas também, mas bonecos, joguetes de suas vontades. Pais ricos, pais pobres, doutores ou mendigos, em quaisquer lares os encontramos, covardemente explorando a fragilidade de seus filhos, em proporções mais ou menos desastrosas, perpetuando neuroses e psicoses.
A título de exemplo, lembramos que a psicóloga alemã Alice Miller divulgou recentemente em seus livros, estudos nos quais pôde encontrar na história dos mais cruéis nazistas da Segunda Guerra, infâncias repletas de constrangimentos físicos e psicológicos, no bojo do que denominou a pedagogia negra, aquela que dá aos pais o direito de torturar os filhos com ameaças, surras e intimidações emocionais, e que até hoje nos faz afirmar que ´uma palmadinha não causa mal a ninguém´. Porém, quase nunca uma palmadinha é apenas uma palmadinha.
Para combater este círculo vicioso? A conscientização, em primeiro lugar. Pelo menos, por parte de alguns que se obrigarão a criar, propagar e fazer cumprir leis que protegem o menor e lhe garantem o direito à educação, ao desporto, à cultura, ao lazer, à saúde. Em segundo lugar, a boa vontade que nos arrancará do comodismo que atribui apenas aos poderes públicos o que é também uma obrigação pessoal de cada cidadão. Todos somos responsáveis pelo destino de nossas crianças!
MENDICÂNCIA - Fome é a justificativa dada pelas famílias
Por que uma família mandaria ou levaria uma criança para a rua com o objetivo de pedir esmola? Para os que praticamente todos os dias esperam por um trocado nos sinais, a resposta é simples: a fome. Diante da difícil situação de arranjar um emprego, ou uma renda fixa, mães, tias, avós argumentam que a falta do dinheiro é o que justifica a prática. Além disso, como assume a desempregada Izabel Maria Martins Sampaio, 33 anos, é mais fácil os motoristas se sensibilizarem ao verem crianças ao lado.
Segundo Izabel, devido à asma não consegue arranjar um emprego. Quando não tem o que comer, vai ao cruzamento da Avenida Dom Luís com a Rua Oswaldo Cruz. Para isso, leva sempre um dos três filhos, com três, seis ou sete anos. “Se eu vier sozinha, não vão acreditar que eu não posso trabalhar e não dão nada. Eles num ficam pedindo, não. Ficam sentados do meu lado e quando alguém chama eles vão e pegam o dinheiro”, esclarece.
Já a desempregada Regina Clara Lima da Silva, 36 anos, afirma que só leva o filho mais novo (de quatro anos) ao sinal, pelo fato de não ter com quem deixá-lo em casa e precisar do dinheiro para alimentar os outros quatro mais velhos. “Não tenho o que comer, então tenho que pedir. Se eu não viesse ia fazer o quê? Roubar? Tenho que trazer meu filho porque ele é muito danado”, explica.
Mãe de quatro filhos, Regina da Silva explica que nunca dispôs de um trabalho fixo. “Mas não deixo eles virem só. É sempre comigo, porque na rua eles aprendem tudo que não presta”. Em situação semelhante, também está Maria José Abreu Lima. Diariamente, ela fica entre os cruzamentos da Avenida Virgílio Távora, pedindo uma ajuda a quem passa. Sempre junto dela está seu filho, de quatro anos, além de três sobrinhos, todos crianças. Aliás, como lembrou, os sobrinhos vão sozinhos “porque querem”.
FIQUE POR DENTRO - O que diz o Estatuto da Criança e do Adolescente
Instituído em 13 de julho de 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº8.069) considera, no artigo quatro, que ´é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária´.
Em caso de submeter a ´criança ou o adolescente, sob sua autoridade, guarda ou vigilância, a vexame ou a constrangimento´, o artigo 232 do Eca pune o adulto ou responsável pelo jovem à detenção de seis meses a dois anos.
O Estatuto da Criança e do Adolescente também prevê, no artigo 238, que quem ´prometer ou efetivar a entrega de filho ou pupilo a terceiro, mediante pagamento ou recompensa´, poderá ser submetido a uma pena de reclusão de um a quatro anos e multa. O parágrafo único incide as mesmas penas a quem oferece ou efetiva o pagamento ou recompensa.
Fonte: Diário do Nordeste
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