
Relatório divulgado recentemente pela Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o consumo de drogas no Brasil expôs números alarmantes. De acordo com a ONU, jovens têm abusado de produtos ilícitos e lícitos, como o cigarro e o álcool. O documento detalha também um aumento de usuários de cocaína e de maconha no país, principalmente na região Sudeste. Os dados contrariam justamente as ações de prevenção feitas pelo governo federal. Inclusive, a data de 26 de junho de 2008 foi definida como o Dia Internacional contra o Abuso e Tráfico Ilícito de Drogas.
No relatório da ONU, o Brasil tem 870 mil usuários, o segundo maior número das Américas, só perdendo para os Estados Unidos. Entre 2001 e 2005, o consumo de cocaína aumentou de 0,4% para 0,7%, entre brasileiros de 12 a 65 anos. O de maconha aumentou duas vezes e meia, o maior crescimento da América do Sul.
No site da Secretaria de Comunicação Social, o general Paulo Uchôa, secretário nacional Antidrogas, não rebateu os dados divulgados pela ONU. Para ele, é necessário trabalhar na repressão do tráfico de drogas, e no âmbito do consumo é preciso ações articuladas de prevenção, entre todos os setores do governo e da sociedade.
Prevenção
Em Barra Mansa, somente em junho e início de julho foram detidas 11 pessoas por porte de droga para consumo próprio, e sete eram menores de idade. Todos foram autuados no artigo 28 do Código Penal, em que desde 2006 o usuário recebe um tratamento especial, não é mais preso e a ele são impostas penas restritivas, como a prestação de serviços à comunidade.
A coordenadora do programa Construindo Vidas, Eulália Villela, que auxilia adolescentes entre 12 e 18 anos incompletos a deixarem o vício das drogas e do alcoolismo, em uma ONG no bairro Ano Bom, acha que o trabalho de prevenção começou no caminho errado. “Há dez anos a solução era a internação, hoje estamos num nível ambulatorial, já em um estágio prático de inserir o adolescente em atividades esportivas e culturais. Em suma, a prevenção e á essência do tratamento”, garante Eulália.
Para Eulália, é preciso começar na base, conscientizar as crianças sobre os malefícios da droga, com uma linguagem acessível, pois quando o garoto chegar à juventude saberá distinguir o mal social causado pelas drogas. “As crianças precisam aprender o valor de preservar a mente e o corpo. Um indivíduo sadio terá uma participação satisfatória na sociedade, já uma pessoa envolvida com drogas possivelmente abandonará os projetos pessoais”, esclarece.
Especialistas afirmam que existem dois motivos para o aumento do consumo. Primeiro, a maioria dos dependentes químicos não aceita o fato de portarem uma doença incurável e que o tratamento nunca poderá ser interrompido, em segundo, os adolescentes buscam nos entorpecentes as soluções dos problemas.
A falta de limite também é um fator a ser considerado pelos pais. Para psiquiatras, os jovens não sabem lidar com os limites e quando recebem um não buscam nas drogas uma forma de afeto. “O adolescente não tem respeito por si mesmo nem pelo próximo. Eles estão em uma fase muito conflituosa, cheia de descobertas, agem por impulso, até pela falta de amadurecimento. Pois um adulto já tem na prática o desastre da droga, já perdeu família, emprego e dignidade. O jovem não elabora bem as emoções. Então, é uma idade muito complexa, por isso a importância de trabalhar na base, conscientizar a criança desde o início”, informa Eulália.
O trabalho desenvolvido pela ONG Construindo Vidas é uma parceria com a Fundação para Infância e Adolescência (FIA). A idéia é diminuir os índices de usuários e colaborar para uma melhor qualidade de vida dos jovens.
Fonte: Jornal A Voz da Cidade